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Nas eleições gerais para prefeito de São Paulo, em 2016, o candidato João Dória venceu já no primeiro turno com 53% dos votos e convenceu a população que seu discurso do “político não-político“, “precisamos de algo novo” e sua imagem de “gestor” seria o ideal para governar a cidade de São Paulo pelos próximos 4 anos. Mas ainda ficaram alguns questionamentos sobre todo esse discurso do “novo” na política e todo o marketing envolvido nesse processo.

O intuito dessas perguntas não é questionar a gestão de Dória, até porque ele iniciou seu mandato recentemente e não há parâmetros para avaliar, mas sim, refletir se esse discurso realmente funciona ou foi apenas marketing eleitoreiro.

O “político não-político”

Um dos focos da campanha de Dória foi tentar desvincular sua imagem a qualquer envolvimento com a “política” e com termos relacionados. Foi possível ver esse discurso em praticamente todas suas propagandas e reforçado nos debates. Esse discurso de “não-político”, querendo ou não, se resume a uma forma de fazer política. O político “não político” é uma forma política de dizer que “sou contra a política”. O que não deixa de ser um viés político.

O termo política vai muito além de “ser um governante de um estado” ou “vote em mim”. Política está relacionada à sociedade, à habilidade de se relacionar e influenciar a opinião pública e ao método de como praticar essa política.

Dória fez política muito antes de ser o candidato efetivo à prefeitura. Fez política quando,  dentro do próprio PSDB, se lançou como potencial candidato do partido. Fez política quando fora apadrinhado por Geraldo Alckmin. Fez política quando dizia que não era político e, principalmente, quando dizia que não fazia política.

Sabendo que na atualidade a política brasileira passa por uma crise institucional onde todos os partidos se digladiam para ver quem consegue se desvincular da imagem de “corrupto”, o discurso de que “não sou como eles” parece ser de fato o mais atraente. Mas o que fica claro é que quem acredita nisso não faz a menor ideia de como funciona o sistema político brasileiro.

Primeiro é preciso entender que essa imagem centralizadora de que “ele vai resolver tudo” é até um pouco perigosa, afinal, ter alguém como “Messias ” passa um conotação altamente ditatorial. Governar sozinho é chamar a responsabilidade para si, não importa se suas decisões agradem uns ou outros, afinal, quem votou nele quis que ele “resolvesse tudo”. Dória não tem o poder de decidir nada por conta própria e, infelizmente, é preciso ter alianças dentro dos poderes para conseguir governar (vide a própria Dilma que, por não conseguir articular essas alianças, acabou nem terminando seu mandato).

Um “não-político” é um político que veste uma fantasia de “sou contra tudo isso” para, na verdade, ser obrigado a fazer parte do sistema se quiser manter essa imagem, afinal, política e marketing andam juntos.

 

Precisamos (?) de algo novo

Outro discurso que foi altamente proliferado durante a campanha de Dória é de que São Paulo precisava respirar novos ares e que precisava de “algo novo”. Mas a grande questão filosófica que fica é: O que é “algo novo”? Poderíamos traduzir esse político novo como: “Um governante que se diz saturado com a política atual e que promete ser alguém com ideias novas. Uma pessoa que já tenha dinheiro o suficiente para não precisa roubar do povo. Um político que promete política para todos e que irá acabar com a corrupção. Alguém que trará confiança ao mercado e investimento de fora”. Esse discurso é muito bonito, se não fosse parecido com que fez o ex-presidente Fernando Collor se eleger.

Nos anos 80, Ronald Reagan foi candidato à presidência dos Estados Unidos com um discurso bem próximo ao atual. O ator dizia que a América precisava de um mente diferente dos políticos da época, o que o fez ser eleito. Outro político que vendeu bem essa ideia de que “precisamos de algo novo” foi o próprio Lula, em 2002. Próximo do final da gestão do FHC, o Brasil vivia um momento turbulento na economia e o PT trouxe à tona a ideia de mudança e de algo novo… E deu certo.

O que precisa ficar claro é que, diferente de países de primeiro mundo, a economia brasileira é chamada de “voo de galinha”.  Por um curto período, aproximadamente a cada 5 anos, temos um pico de positividade e após esse período a tendência é cair. Durante essa queda, há os políticos que propagam o discurso de que “essa gestão atual não presta” e “precisamos de mudanças urgente”. Essa ideia de que “precisamos de política nova” já não é novo faz um bom tempo. É uma estrategia utilizada desde os primórdios da democracia e é citado nos primeiros livros publicados sobre marketing político. Porém, vemos que esse discurso se repete durante anos quando, na verdade, até hoje não vimos algo realmente novo aparecer.

O gestor

Dória soube muito bem vender a ideia de “sou empresario” e que “a cidade precisa de um gestor”. Sem entrar no mérito se ele é ou não é um bom empresário, o que precisa ficar claro é que gerir uma empresa não tem qualquer relação com gerir uma cidade. Uma empresa privada é composta por um dono, os sócios e acionistas e, por sua essência, visam o lucro dessas partes envolvidas. Já o setor público visa arrecadar impostos para reverter esse dinheiro em serviços para a população. É fato que os serviços privados em geral são muito melhores em qualidade que os públicos, afinal, é estimulado pelo livre-mercado e pela concorrência, mas não são acessíveis a todos. Já o público, como o próprio nome diz, é um direito de toda população.

Acreditar em um discurso de que “vamos gerir São Paulo como uma empresa” tem até um viés de oportunidade. A cidade de São Paulo, como todos sabem, é o polo empresarial do Brasil onde estão concentrados grandes centros comerciais. Mas o questionamento que fica é qual a porcentagem da população paulistana que é realmente empresarial?  Ou quem seriam os beneficiados por essa gestão empresarial?

Um gestor publico não pode ter foco no lucro, mas sim, na distribuição de dinheiro para o serviços públicos mais necessitados, o que é completamente o oposto do conceito de “gestor privado”. A ideia de que Dória foi eleito como um gestor, tendo gerido apenas o setor privado, é complemente refutada quando se trata de poder público. Na gestão privada, a concentração de riqueza na mão dos sócios/acionistas não passam por qualquer aprovação dos funcionários nem em interferência de setores públicos. Essa concentração pode ser explicada e justificada pelos riscos e responsabilidades deles próprios em caso de crise. Já gestão pública, não há essa concentração de riqueza, já que todo dinheiro arrecadado é do povo e, na crise, todos são responsáveis.

Vemos claramente que seu início de mandato está a todo vapor, tirando fotos publicitárias para capas de grandes jornais e portais na internet.  Mas a grande questão é como Dória irá manter seu discurso marketeiro eleitoreiro durante os próximos 4 anos, já que é ultrapassado em todos os âmbitos e parece não funcionar a longo prazo.

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